peixes realmente sentem dor

Você sabia que os peixes realmente sentem dor?

Esses animais não humanos possuem o aparato anatômico-fisiológico que permite perceber a dor, processar essa informação no cérebro e desencadear comportamentos complexos em resposta.

A questão sobre a possibilidade dos peixes sentirem dor foi (e ainda é!) motivo de intensas discussões na área de comportamento e bem-estar animal. Mas o peso das evidências científicas de que os peixes realmente são capazes de sentir dor vem se acumulando consideravelmente ao longo dos anos, a ponto de que não podemos mais negar essa ideia. E isso apresenta implicações diretas na forma como lidamos com esses animais não humanos nos sistemas de produção, na pesca, nos laboratórios ou mesmo em aquários ornamentais. 

Os peixes vivem na água, o que por si só representa um mundo à parte bem diferente de onde nós, seres humanos, vivemos. É um ambiente com suas próprias características e singularidades, com seus próprios desafios, que muitas vezes são diferentes do ambiente terrestre. Os peixes são animais pecilotérmicos, ou seja, regulam sua temperatura corporal de acordo com a temperatura do ambiente, o que é diferente do que acontece nos humanos. Eles também não têm expressões faciais ou corporais muito semelhantes às nossas. Talvez todas essas diferenças muitas vezes sejam um entrave para aceitar a ideia de que eles são animais não humanos que, assim como nós, podem sim sentir dor, dentre outras emoções

Unsplash

Mas não são as diferenças com o ser humano que importam, e sim o que a ciência diz sobre a capacidade dos peixes sentirem dor. Veja algumas evidências científicas relevantes:

  • – Peixes têm células receptoras “de dor” e processam a informação dolorosa: Há diversas pesquisas que apontam para o fato de que ao menos algumas espécies de peixes possuem as células receptoras de estímulos dolorosos (nociceptores), além de fibras condutoras ativas desses estímulos [1] [2] [3] – conhecidas como fibras C e fibras A-delta – que servem como uma espécie de ‘caminho’, conduzindo essa informação para o cérebro dos peixes. Os estudos também têm demonstrado que a informação do estímulo que causa dor é então processada no cérebro [2] [3] [4] e acaba desencadeando respostas comportamentais que vão muito além de um mero reflexo [2]. E é difícil imaginar que todo esse aparato anatômico-fisiológico esteja presente apenas nas espécies de peixes em que já foi investigado.
  • – Peixes com dor não respondem apenas com meros reflexos: Retirar instantaneamente a mão do fogo para não se queimar é uma resposta reflexa que um ser humano faz automaticamente, ou seja, não é necessário processar a informação no cérebro para realizar o movimento. Por outro lado, esfregar uma região machucada ou queimada na tentativa de amenizar a dor posteriormente é algo que requer o envolvimento de consciência. No caso dos peixes, isso não é diferente. Há estudos que trazem as alterações comportamentais complexas que os peixes são capazes de fazer quando em situações em que estão sentindo dor. Por exemplo, quando vinagre foi injetado nos lábios da truta-arco-íris, esses peixes começaram a esfregar a região afetada no cascalho do fundo ou mesmo nas paredes do aquário [2]. 
  • – A dor afeta seus comportamentos naturais: Os peixes normalmente têm uma aversão inicial por objetos novos inseridos no ambiente – assim como muitos outros animais, mas em situações dolorosas eles perdem essa resposta, ou seja, eles perdem esse medo natural quando estão com dor [5]. Se os peixes já estavam previamente condicionados a buscar alimento na superfície da água quando a luz do ambiente acende – algo que pode ser facilmente observado em aquários ornamentais –  eles simplesmente deixam de apresentar essa resposta se estiverem com dor [1]. Isso deve ocorrer porque a dor desvia a atenção do peixe, afetando seu comportamento – assim como pode acontecer com um ser humano com dor. Essas respostas não podem ser encaradas como um simples reflexo desses animais não humanos.
Unsplash
  • Peixes tentam evitar a dor: Os peixes são até capazes de modular sua resposta comportamental ao estímulo doloroso dependendo das circunstâncias. Por exemplo, um estudo mostra que o peixinho dourado e a truta-arco-íris aprendem rapidamente a evitar regiões específicas do aquário se eles tomarem choques elétricos nessas regiões [6]. Mas, no caso da truta, os indivíduos foram capazes de tolerar choques mais fracos para ficarem perto de outros peixes da própria espécie [6], tamanha a importância da socialização para a truta. 
  • – Se receberem analgésicos voltam a se comportar naturalmente: Uma vez que o estímulo doloroso tenha sido percebido pelos peixes, desencadeando claras alterações comportamentais em resposta, o comportamento natural desses indivíduos pode voltar ao normal se eles receberem analgésicos! Tem estudo mostrando que os peixes voltam a expressar o medo natural de se aproximar de objetos novos no aquário ao tomarem analgésicos após receberem um estímulo nocivo [5]. 
  • – Peixes sentem outras emoções além da dor: Medo é outra emoção que os peixes demonstram nos estudos [2], assim como estresse e ansiedade. Inclusive há espécies que são usadas como modelo experimental em estudos sobre ansiedade [7]. Ou seja, além da dor, esses animais são capazes de sentir outras emoções negativas que causam sofrimento. Eles também podem sentir emoções positivas, como alguns pesquisadores já estão argumentando, embora menos da metade dos brasileiros reconheça que os peixes são capazes dessas emoções, segundo uma pesquisa da Faunalytics

Existem posicionamentos contrários?

Diante de tantas evidências científicas, fica difícil negar que peixes sentem dor. Mesmo assim, ainda existem pesquisadores que defendem essa ideia com base em argumentos de que os peixes não têm as regiões corticais específicas que são associadas ao processamento cerebral da dor em mamíferos [8] [9], ou mesmo que as fibras condutoras mais associadas à dor crônica em mamíferos (fibras C) são raras em peixes [9]. Mas não é porque não existem regiões cerebrais especializadas exatamente onde elas ocorrem em mamíferos, que tais regiões realmente não existam em peixes. Mesmo a ausência dessas regiões cerebrais não deve ser encarada como um impedimento para realizar comportamentos que são associados a elas nos seres humanos. 

Os peixes são capazes de usar diferentes lados do cérebro para realizar atividades distintas – algo que se chama lateralização [10] – mesmo considerando que a região do neocórtex cerebral é ausente nesses animais, sendo que no ser humano essa é uma região bem associada à capacidade de lateralização. E mesmo tendo em conta que as fibras mais associadas a dor crônica em mamíferos (fibras C) sejam mais raras em peixes, isso não significa que eles não sejam capazes de sentir dor, pois ao menos as fibras associadas a dor aguda nos mamíferos (fibras A-delta) são frequentes em peixes, como demonstram os estudos [1] [2]. E veja que ser raro não significa ser inexistente!

Pixabay

Animais complexos

Assim, mesmo que os peixes não sejam capazes de sentir a dor da forma especializada como os mamíferos sentem – incluindo os seres humanos, isso não quer dizer que eles não sejam capazes de sentir dor de alguma forma. Do ponto de vista evolutivo, é adaptativo para os animais em geral perceber estímulos nocivos que podem ser muito prejudiciais ao organismo. Com isso, os animais humanos e não humanos – incluindo os peixes – podem evitar esses estímulos em eventos futuros. A evolução geralmente ocorre em passos graduais ao longo do tempo, o que torna improvável a ideia de que sentir dor, da forma complexa como ela é nos seres humanos, tenha surgido apenas nos mamíferos. Inclusive, um estudo de revisão relatou que a biologia do sistema relacionado à percepção da dor em peixes é surpreendentemente semelhante àquela que é encontrada nos mamíferos [11]. 

Peixes usam ferramentas, constroem ninhos, cooperam com outros indivíduos da própria espécie ou mesmo de outras espécies, são capazes de aprender comportamentos complexos, têm memória que pode durar meses e são até capazes de reconhecer e diferenciar rostos humanos! Há inúmeros estudos mostrando as mais diversas e surpreendentes capacidades cognitivas dos peixes, o que também sugere que eles sejam animais sencientes, ou seja, capazes de sentir ao menos as emoções mais básicas, tais como a dor. Como afirma a renomada Victoria Braithwaite em seu livro ‘Do Fish Feel Pain?’ [12] sobre a questão da dor em peixes, pelos experimentos e resultados que ela reúne no livro é evidente que eles sentem dor e isso deve mudar a forma como nós pensamos e agimos em relação a esses indivíduos.

Quer saber mais sobre este assunto? Veja o Papo Reto – Afinal, peixes sofrem?

Carol M. Maia é especialista em peixes da Alianima, bióloga, doutora em zoologia na área de comportamento e bem-estar animal e especialista em jornalismo científico.

Referências: 

1. Sneddon L. U., Braithwaite, V. A. e Gentle, M. J. (2003). Do fishes have nociceptors? Evidence for the evolution of a vertebrate sensory system. Proceedings of the Royal Society B, 270 (1520): 1115-1121.

2. Braithwaite V. A. e Boulcott P. (2007). Pain perception, aversion and fear in fish. Diseases of Aquatic Organisms, 75: 131-138.

3. Dunlop R. e Laming P. (2005). Mechanoreceptive and Nociceptive Responses in the Central Nervous System of Goldfish (Carassius auratus) and Trout (Oncorhynchus mykiss). The Journal of Pain, 6 (9): 561-568.

4.  Nordgreen J., Horsberg T. E., Ranheim B. e Chen A. C. N. (2007). Somatosensory evoked potentials in the telencephalon of Atlantic salmon (Salmo salar) following galvanic stimulation of the tail. Journal of Comparative Physiology A, 193: 1235-1242.

5. Sneddon L. U., Braithwaite, V. A. e Gentle, M. J. (2003). Novel object test: examining nociception and fear in the rainbow trout. The Journal of Pain, 4 (8): 431-440.

6. Dunlop R., Millsopp S. e Laming P. (2006). Avoidance learning in goldfish (Carassius auratus) and trout (Oncorhynchus mykiss) and implications for pain perception. Applied Animal Behaviour Science, 97 (2-4): 255-271.

7. Maximino C., de Brito T. M., Dias C. A. G. D., Gouveia A., Morato S. (2010). Scototaxis as anxiety-like behavior in fish. Nature Protocols, 5(2): 209-216.

8. Rose, J. D. (2002). The Neurobehavioral Nature of Fishes and the Question of Awareness and Pain. Reviews in Fisheries Science, 10(1):1-38.

9. Rose, J. D., Arlinghaus R., Cooke S. J., Diggles B. K., Sawynok W., Stevens E. D. e Wynne, C. D. L. (2014). Can fish really feel pain? Fish and Fisheries, 15(1): 97-133.

10. Vallortigara G. e Bisazza A. (2002). How ancient is brain lateralization? In L. Rogers & R. Andrew (Eds.), Comparative Vertebrate Lateralization (pp. 9-69). Cambridge: Cambridge University

Press.

11. Sneddon, L. U. (2019). Evolution of nociception and pain: evidence from fish models.  Philosofical Transactions of the Royal Society B-Biological Sciences, 374 (1785): 20190290.

12. Braithwaite V. A. (2010). Do fish feel pain? Oxford University Press: New York, USA. 194 p.

A cura da Terra

Manifesto denuncia avanço do desmatamento da Amazônia

Ação da ativista e comunicadora Samela Sateré-Mawé e Alianima celebram o Dia Mundial do Meio Ambiente 2022 com o manifesto “Povos Indígenas: A cura da terra”.

Para denunciar o avanço do desmatamento, especialmente nos territórios indígenas amazônicos, a ativista e comunicadora Samela Sateré-Mawé, em parceria com a Alianima, lançaram nesta quinta-feira (2) o vídeo-manifesto “Povos Indígenas: A cura da terra”. O conteúdo está sendo divulgado por meio das redes sociais da ativista e da Alianima e também no website www.alianima.org/acuradaterra.

A iniciativa visa chamar a atenção para esta questão urgente do avanço do desmatamento na Amazônia, que também estará na pauta do Dia Mundial do Meio Ambiente 2022, evento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) que será realizado no próximo domingo (5), em Estocolmo, na Suécia. Na edição deste ano, o evento terá como tema o mote ‘Uma Só Terra’. “Nossos territórios (e corpos) estão sendo ameaçados. Não apenas com o garimpo, mas também com o avanço diário da pecuária, que se desdobra em desmatamento, arrendamentos de terra e grilagem”, alerta Samela, que participará do evento do PNUMA, no dia 5, como comunicadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANIMIGA).

“Nossas terras estão sendo roubadas para criação de gado e monoculturas, como soja e milho. Nossa biodiversidade está sendo atacada pelo apetite voraz pela carne brasileira. Precisamos lembrar que nossa floresta está perdendo toda sua vivacidade para a pecuária, que incentiva desmatamento e queimadas”, diz Samela. De acordo com o Imazon, pelo menos 40% de toda a carne que os brasileiros consomem tem origem em fazendas localizadas na Amazônia Legal. Os pastos dedicados à pecuária ocupam cerca de 90% da área total desmatada, e mais de 90% do desmatamento é ilegal, complementam dados do projeto Amazônia 2030.

A expansão da fronteira agrícola pode ser explicada pelos baixos preços da terra na região e a maior produtividade das pastagens nos principais centros pecuaristas. O capital que patrocina esse avanço muitas vezes tem origem na exploração ilegal da madeira das áreas desmatadas. “Se tudo que fazemos é político, a forma como nos alimentamos também é. É preciso nos questionar diariamente se nossas escolhas pessoais não estão custando a vida de povos indígenas, de animais e de todo o meio ambiente. Somos parte do problema e também da solução”, afirma a ativista.

Veja o conteúdo na íntegra em www.alianima.org/acuradaterra (versão em inglês disponível).

5 ações bolsonaro

5 ações do governo Bolsonaro que colocaram os animais e o meio ambiente em risco

Com o fim do mandato de Jair Bolsonaro (PL) e com a proximidade de novas eleições presidenciais, é hora do eleitor preocupado com essas pautas considerar os retrocessos dos últimos quatro anos que colocaram a fauna e flora brasileiras em perigo. Veja 5 ações do governo Bolsonaro que colocaram os animais e o meio ambiente em risco

Não faltaram recordes negativos no Governo Bolsonaro “no tocante” ao meio ambiente e seus ecossistemas: a Amazônia e o Cerrado nunca foram tão devastados, a lista de agrotóxicos liberados nunca foi tão grande e o Brasil bateu o recorde de abates de frangos e suínos ao mesmo tempo a população voltou a enfrentar a fome. Nenhuma dessas notícias é surpreendente – embora sempre revoltantes – na governança de quem é inimigo do meio ambiente declarado, defendendo o agronegócio com unhas e canetadas, desmoralizando e enfraquecendo órgãos e instituições, compactuando com a impunidade e facilitando a passagem da boiada enquanto já enfrentávamos a pandemia de Covid-19. 

Foto: Victor Moriyama / Greenpeace

Chegada a hora de uma nova oportunidade de eleger quem será o próximo presidente do país, separamos 5 ações do governo Bolsonaro que colocaram os animais e o meio ambiente em risco

  1. SANÇÃO DE LEIS QUE APOIAM RODEIOS E VAQUEJADAS 

Em setembro de 2019, entrou em vigor a lei 13.873/2012 sancionada por Bolsonaro que reconhece o rodeio, a vaquejada e laço “como expressões esportivo-culturais pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro de natureza imaterial”. A lei também beneficia, por extensão, atividades como enduro, hipismo rural, provas de velocidade, cavalgada, cavalhada, concurso de marcha, corrida e polo equestre. 

Um mês antes da sanção da lei, o presidente compareceu a 64ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos (SP) e declarou que aprovaria a lei assim que chegasse às suas mãos, e que é contra o “grupo do politicamente correto que quer impedir festas desse tipo no Brasil”. Porém, rodeios e vaquejadas são práticas extremamente cruéis contra os animais, realizadas exclusivamente para o deleite e lucro de humanos. 

No mesmo ano, o presidente instituiu o Dia do Rodeio, celebrado no dia 4 de outubro, paradoxalmente na mesma data em que se comemora o Dia Mundial dos Animais. 

Foto: Reprodução/ Twitter

2. TRANSFERÊNCIA DO SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO PARA O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA 

Um dos primeiros atos do governo de Jair Bolsonaro, no início de 2019, foi tornar o Serviço Florestal Brasileiro uma unidade da estrutura básica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), liderada na época pela ministra e ex-presidente da “bancada ruralista”, Tereza Cristina, e hoje pelo recém-empossado, ministro Marcos Montes. Antes da medida provisória que transferiu essa competência ao MAPA, o SFB era ligado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). O Serviço Florestal Brasileiro é responsável pela gestão do Cadastro Ambiental Rural (CAR), base de dados estratégica para o controle, monitoramento, combate ao desmatamento e planejamento ambiental e econômico – questões importantíssimas para a proteção ambiental, mas de total interesse do agronegócio. Recentemente, um estudo publicado na revista Land Use Policy, apontou que aproximadamente 90% da área presente nos cadastros da região não estão de acordo com as leis ambientais brasileiras e podem estar sendo usados para grilagem em terras públicas no Amazonas.

3. FLEXIBILIZAÇÃO E APOLOGIA AO PORTE DE ARMAS E A CAÇA

Mesmo antes de assumir a cadeira da presidência, Bolsonaro já deixava claro sua posição em defesa da caça, considerando a prática um “esporte saudável”. Após eleito, seguiu fomentando por meio de decretos o porte de armas e a expansão da caça no Brasil, facilitando o acesso do grupo CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) ao armamento. O número de pessoas físicas que pediram registro para atuarem nessas categorias aumentou 43,3% de 2019 para 2020, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2021.

A caça é proibida no Brasil, mas além de faltar fiscalização das atividades dos “caçadores” pelo Exército Brasileiro, a exceção à caça legal aos javalis se tornou uma desculpa para matar e para obtenção do porte de armas, podendo ser utilizadas também para fins que ameaçam, além dos animais, a sociedade civil. Além da caça se mostrar ineficaz no controle desses animais, os javalis, e outros são mortos de forma cruel e abusiva. A prática legal de caça aos javalis, inclusive, virou argumento perigoso a favor do PL 5.544/2020, que pretendia liberar a caça esportiva de animais silvestres no Brasil, mas que felizmente foi retirado de pauta na Câmara dos Deputados. 

Foto: Reprodução/ Instagram

4. DESESTRUTURAÇÃO DO IBAMA E DO ICMBio

Essas duas autarquias federais de extrema importância para a gestão ambiental e conservação da biodiversidade brasileira sofreram grandes abalos durante esses anos. Foram cortes orçamentários, bloqueio a novos concursos, falta de estrutura, destruição de leis ambientais, ingerência de políticos aliados a segmentos fiscalizados por lei, entre outros. 

Em abril de 2019, por exemplo, Bolsonaro assinou um decreto que burocratiza as multas ambientais do Ibama por meio do do projeto de criação do “Núcleo de conciliação”, que pode mudar o valor ou até mesmo anular multas por crimes ambientais. Em janeiro de 2022, o presidente comemorou a redução de 80% das multas do campo enquanto o desmatamento aumentou. 

Desde outubro de 2020, o MMA estuda uma possível fusão entre o Ibama e o ICMBio. Segundo artigo publicado na Folha de SP por pesquisadoras e profissionais que acompanham o trabalho dos órgãos, essa fusão “dificultaria a agilidade dos processos, a integração dos sistemas, a divisão do orçamento e de pessoal – que já são insuficientes, comprometendo seus resultados”

5. ENFRAQUECIMENTO DO INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE)

Em julho de 2021, uma medida do governo retirou do Inpe, órgão técnico vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), o monitoramento e divulgação sobre dados de queimadas e incêndios florestais do país, passando o encargo para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), subordinado ao MAPA. Especialistas viram na mudança uma manobra para controlar a informação, favorecer quem pratica ações criminosas e enfraquecer o órgão já tão atacado pelo presidente que chegou a dizer que os dados sobre o crescimento do desmatamento no Brasil publicadas pelo Inpe em 2019 eram “mentirosos”. O instituto, apesar de ser uma das mais relevantes instituições científicas do país, possuir reconhecimento internacional e contribuir no monitoramento ambiental, com foco na floresta amazônica, passa por forte restrição orçamentária. Em 2021, o desmatamento da Amazônia foi o maior dos últimos 10 anos, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Os dados apontam que mais de 10 mil quilômetros de mata nativa foram destruídos no ano passado –  um crescimento de 29% em relação a 2020. Milhares de animais morrem ou ficam gravemente feridos com a devastação dos biomas.

petição genética frangos

Petição propõe regramento para a seleção genética dos frangos

Encabeçada pela Alianima, o documento endereçado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) propõe a regulamentação de critérios que proporcionem um ritmo de crescimento dos animais mais próximo do natural

O Brasil detém o título de maior exportador de carne de frango do mundo, ocupando a terceira posição no quesito produção, com uma cifra que supera a marca de 16,6 milhões de cabeças abatidas diariamente (IBGE). O que poderia ser motivo de orgulho esconde os efeitos cruéis do uso do melhoramento genético pela indústria da carne de frango. 

A tecnologia de seleção genética de frangos criados para abate consiste no cruzamento de aves com a seleção de características mais desejáveis, para que as próximas gerações tenham um ganho genético que proporcione um aumento da produtividade das granjas, com menor custo e maior rapidez. Na seleção, são priorizados o desenvolvimento da musculatura de peito e coxa, consideradas as partes mais lucrativas, além de induzir um crescimento acelerado dos frangos, em um ritmo até três vezes mais rápido que o natural. 

Na década de 50, um frango levava cerca de 70 dias para atingir um peso de 905g. Hoje, são necessários apenas 42 dias para que o animal passe de 60 gramas para 3 kg, peso considerado pela pecuária como ideal para o abate. O problema é que esse crescimento antinatural produz diversas sequelas aos animais, dado que os órgãos vitais e a estrutura óssea não acompanham o crescimento acelerado, levando as aves a apresentarem doenças metabólicas e locomotoras.

O excesso de peso pode provocar deformação nas pernas impedindo as aves de ficarem em pé e se locomoverem, impossibilitando-as de chegarem até comedouros e bebedouros, fazendo com que elas passem fome e sede. Fraturas e problemas de articulação também são frequentes. O coração e os pulmões são sobrecarregados com os músculos aumentados, provocando a morte súbita dos animais. Lesões de pele e patas também são comuns devido ao sobrepeso. 


O Brasil possui algumas definições legais sobre bem-estar animal, como instruções normativas que estabelecem normas de abate, mas não há regulamentos quanto à seleção genética. Para mudar esse cenário que, além de ineficaz, desconsidera mínimos padrões éticos em relação aos animais, as organizações de proteção animal Alianima, Animal Equality, Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Humane Society International, Mercy For Animals, Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) e Sinergia Animal lançaram uma petição para solicitar que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) regulamente a seleção genética dos frangos, oferecendo aos animais o direito a crescer em um ritmo mais próximo do natural, proporcionando melhorias em questões de saúde e bem-estar.

Assine agora!

seleção genética de animais

Quando vamos traçar limites éticos para a seleção genética de animais?

Nós, humanos, temos nos relacionado com outras espécies animais há séculos. Cientistas acreditam que os cães foram os primeiros a serem domesticados. Por meio de relatos arqueológicos, sugerem que há mais de 14.000 anos temos estabelecido com eles uma cooperação mútua para caça, proteção e companhia. E aproximadamente 12.000 anos atrás, teríamos começado a domesticar outros animais, como carneiros, para deles obtermos carne, leite e lã.

Desde então, o caráter exploratório dos animais pelos humanos foi se acentuando. A partir do entendimento básico de hereditariedade, o ser humano começou a cruzar animais com características e/ou habilidades desejáveis, no intuito de mantê-las ou aumentá-las nos descendentes, promovendo o surgimento de raças com aptidões específicas, como cães mais adaptados para caça, ou cavalos mais mansos. 

Com o desenvolvimento da engenharia genética, desde meados do século XX, a seleção artificial tem sido altamente aplicada. Sobretudo em um cenário pós-Segunda Guerra Mundial, quando a produção de alimentos passou por um processo de intensificação para suprir uma população que voltava a crescer, a pecuária acompanhou a modernização agrícola, de modo a impulsionar ao máximo a produtividade. Dentre diversas tecnologias, a seleção genética foi uma forte aliada, uma vez que permitiu um crescimento acelerado dos animais, aumento na produção de leite, maior desenvolvimento de músculos para cortes de carne mais interessantes comercialmente, mais leitões nascidos por parto, entre outros.

As mudanças, mesmo que promovidas gradativamente, são exorbitantes. A produção de leite de algumas raças bovinas, como a Holandesa, mais que dobrou nos últimos 40 anos; as porcas, que antes geravam em torno de 7 filhotes a cada gestação, hoje dão à luz mais de 12 leitões que ganham muito mais peso em muito menos tempo, principalmente por maior desenvolvimento das áreas do lombo e do pernil; galinhas poedeiras que, de 15 ovos por ano, agora põem cerca de 300; e os frangos que, assim como os suínos, crescem muito mais rápido (até 3 vezes mais que o natural) e desenvolvem mais a musculatura de peito para atender o mercado. 

seleção genética de animais
Vaca da raça Holandesa com elevada produção de leite por seleção genética.
Fonte: Sinergia Animal

Entretanto, todas essas alterações nos corpos dos animais causam inúmeros prejuízos ao seu bem-estar. As vacas comumente manifestam problemas de saúde, como mastite (processo inflamatório bastante doloroso), laminite (inflamação nos cascos, chegando a mancar) e cetose (distúrbio metabólico). Os porcos apresentam maior mortalidade ao nascer, comportamento mais agressivo (lesionando uns aos outros), doenças metabólicas, sofrem muito mais com o calor, são mais vulneráveis ao estresse, e as reprodutoras frequentemente passam fome porque demandam mais energia e nutrientes para gerar mais filhotes. As aves poedeiras também ficam mais agressivas (há incidência de aves mortas em gaiolas por conta das bicadas) e sofrem de osteoporose por falta de cálcio, que é retirado dos ossos para produzir a casca dos ovos. Já os frangos apresentam doenças metabólicas, locomotoras e cardiovasculares, porque seu coração, pulmões, ossos e outros órgãos não acompanham o veloz crescimento dos músculos em apenas 42 dias, quando são enviados ao abate.

seleção genética de animais
seleção genética de animais
A linhagem genética comercial origina um porco mais pesado, com dificuldade de locomoção e quase sem pelos para se proteger do calor e do sol. Fonte: Starvet
seleção genética de animais
Frangos de corte atingem seu peso de abate aos 42 dias, apresentando diversos distúrbios.
Fonte: Oikeutta eläimille

Além do sofrimento causado aos animais, a justificativa do aumento da produtividade para alimentar uma crescente população humana é bastante questionável. Não apenas pelo fato da pecuária industrial promover drásticos impactos ambientais, mas também por ser um sistema de produção de alimentos extremamente ineficiente do ponto de vista energético: em média, para alimentar os animais criados para consumo, são usadas aproximadamente dez vezes mais calorias do que as contidas em sua carne. Portanto, as toneladas de grãos cultivadas, como a soja, o sorgo e o milho, necessárias para alimentar os bilhões de animais que são abatidos anualmente, poderiam ser destinadas de forma mais eficiente para alimentar diretamente a população humana. Fora que muitos desses produtos de origem animal não são economicamente acessíveis a todas as camadas sociais. Há muito gasto de energia, terras, água limpa, mão-de-obra, combustível para produzir e exportar/comercializar esses alimentos. E a aceleração da engorda dos animais não torna a atividade mais sustentável, visto que a indústria tende a produzir cada vez mais, e não a reduzir o seu impacto social e ambiental. 

Dado esse conflito ético e ineficácia, a saída então seria frear esse suposto melhoramento genético, a fim de originar animais que crescem em um ritmo mais próximo do natural, o que reduziria muitos problemas de saúde e bem-estar. Aliado a essa medida, é preciso compreender que o consumo de produtos de origem animal deve ser gradativamente reduzido pela população geral, porque o planeta não comporta mais sucessivos recordes de produção, e os animais não deveriam ser submetidos a tantas manipulações excruciantes para atender um hábito (não uma necessidade).

A Alianima atua para reduzir as piores práticas da pecuária industrial, como o uso de linhagens genéticas de crescimento rápido, além do alojamento em celas e gaiolas, e procedimentos dolorosos rotineiros na produção animal.

Referências

APPLEBY, M.; SANDØE, P.; WEARY, D. M. Dilemmas in animal welfare. CAB International, 220 p.

CARVALHO, P. N. de. Da crise à abundância: Segurança alimentar e modernização agrícola na Europa no pós-Segunda Guerra Mundial. Revista História & Perspectivas, [S. l.], v. 31, n. 59, p. 141–154, 2019. DOI: 10.14393/HeP-v31n59p141-154. Disponível em: <https://seer.ufu.br/index.php/historiaperspectivas/article/view/49370>. Acesso em: 11 mar. 2022.

DAWKINS, M. S.; LAYTON, R. Breeding for better welfare: genetic goals for broiler chickens and their parents. Animal Welfare, v. 21, p. 147-155, 2012. Disponível em: <https://users.ox.ac.uk/~snikwad/resources/GeneticsAW.pdf>. Acesso em: 12 mar. 2022.

DECUYPERE, E.; BRUGGEMAN, V; EVERAERT, N.; YUE LI; BOONEN, J.; DE TAVERNIER, J.; JANSSENS, S.; BUYS, N. E. The Broiler Breeder Paradox: ethical, genetic and physiological perspectives, and suggestions for solutions. British Poultry Science, v. 51, n.: 5, p. 569-579. DOI: 10.1080/00071668.2010.519121. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/00071668.2010.519121>. Acesso em: 11 mar. 2022.

FIGUEIREDO, E. A. P. Melhoramento genético de suínos – o exemplo americano. In: GENTILINI, F. P.; ANCIUTI, M. A. (Org.). Tópicos atuais na produção de suínos e aves. Pelotas: IFSul/Pelotas, 2013. p. 160-190. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/96727/1/final7179.pdf>. Acesso em: 09 mar. 2022.

LEAR, J. Our Furry Friends: the History of Animal Domestication. Journal of Young Investigators, v. 23, n. 2, 2012. Disponível em: <https://www.jyi.org/2012-february/2017/9/17/our-furry-friends-the-history-of-animal-domestication#:~:text=The%20first%20animals%20to%20be,integral%20part%20of%20nomadic%20communities>. Acesso em: 10 mar. 2022.

MORAES, V. G.; CAPANEMA, L. A genética de frangos e suínos – a importância

estratégica de seu desenvolvimento para o Brasil. BNDES Setorial, v. 35, p. 119-154, 2012. Disponível em: <https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/1492/3/A%20set.35_A%20gen%C3%A9tica%20de%20frangos%20e%20su%C3%ADnos_P.pdf>. Acesso em: 11 mar. 2022.

OLTENACU, P. A.; BROOM, D. M. The impact of genetic selection for increased milk yield on the welfare of dairy cows. Animal Welfare (pre-publication copy), v. 19(S), p. 39-49, 2010. Disponível em: <https://www.researchgate.net/profile/Donald-Broom/publication/228675305_The_impact_of_genetic_selection_for_increased_milk_yield_on_the_welfare_of_dairy_cows/links/5703a63d08aeade57a25a970/The-impact-of-genetic-selection-for-increased-milk-yield-on-the-welfare-of-dairy-cows.pdf>. Acesso em: 12 mar. 2022.

RINCON, P. Dogs are humans’ oldest companions, DNA shows. BBC News website, 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/science-environment-54690458>. Acesso em: 10 mar. 2022.

cartilha superbacterias e resistência antimicrobiana

Alianima lança cartilha sobre superbactérias e resistência antimicrobiana em alimentos

Material gratuito com versões para consumidores e produtores, visa a conscientização sobre o uso racional de antibióticos na pecuária industrial.

Prática na União Europeia desde 2006, a proibição no uso de antibióticos como promotores de crescimento em animais ainda é incipiente no Brasil e a discussão sobre o tema começa a ganhar espaço para além da pecuária industrial. 

Para alertar e conscientizar sobre o problema, a Alianima lança hoje a cartilha sobre superbactérias para orientar consumidores e produtores sobre os perigos das superbactérias, que podem surgir a partir do uso indiscriminado de antibióticos na produção animal. Intitulada “O que você precisa saber sobre AS SUPERBACTÉRIAS E RESISTÊNCIA ANTIMICROBIANA”, a cartilha já está disponível para download.

Alianima lança cartilha sobre superbactérias.

Na pecuária industrial é comum a utilização de antibióticos de maneira preventiva, quando os animais não estão doentes, prática que colabora diretamente com o surgimento de patógenos cada vez mais resistentes aos antimicrobianos, tornando os antibióticos menos eficazes quando realmente necessários.

O Brasil é o maiores exportadores mundiais de carne suína e de frango, mas não há legislação específica sobre o uso não-terapêutico de antimicrobianos na pecuária industrial. À medida que um número crescente de consumidores se torna consciente dos potenciais benefícios da escolha de produtos “livres” desses medicamentos, os mercados interno e externo podem se tornar vulneráveis. Em janeiro deste ano, por exemplo, entraram em vigor novas leis proibindo alimentação rotineira contendo antibióticos na criação animal pela União Europeia, incluindo produtos importados pelo bloco. Essa decisão impacta as exportações brasileiras, principalmente de frango de corte.

Todos os atores da cadeia possuem responsabilidade sobre o tema, incluindo o consumidor final, fazendo valer sua força a partir da exigência de produtos fabricados com responsabilidade e transparência, além da adoção de melhores escolhas. Que tal fazer parte dessa mudança?

Baixe agora e compartilhe esta importante informação por aí.

agronegócio não é sinônimo de segurança alimentar

3 razões pelas quais o agronegócio não é sinônimo de segurança alimentar

Participante de 26% do PIB do país, o agronegócio não é garantia de comida suficiente e de qualidade no prato da população brasileira, que volta a enfrentar a fome.

Imagine viver em um país em que, ao mesmo tempo que segue batendo recordes com o agronegócio, registra 55% da sua população enfrentando algum nível de insegurança alimentar. Imaginou? Infelizmente, essa não é uma projeção distópica, e sim um paradoxo da realidade brasileira. O aumento da fome, já verificada antes mesmo da pandemia de Covid-19, teve seu derradeiro empurrão ladeira abaixo com a maior crise sanitária mundial da nossa época, mas nesse mesmo cenário devastador, o Brasil foi o terceiro maior produtor de alimentos do mundo, e o agronegócio foi o único setor que cresceu no período. Por que, então, o setor autoproclamado “riqueza do Brasil” não é sinônimo de segurança alimentar para os seus cidadãos

(Foto: Elineudo Meira/Fotos Públicas)

Antes de explorarmos as três razões pelas quais o Agronegócio não é sinônimo de comida no prato, é importante definir o que significa segurança alimentar. De acordo com a  Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan), a segurança alimentar é definida como “a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis”. Quando esses ideais são comprometidos, surge a insegurança alimentar, que pode ser classificada como leve, moderada ou grave. Se estiver no nível grave, a pessoa está experienciando a fome.

Apesar do agronegócio não ser isoladamente responsável pelo aumento da insegurança alimentar, ele poderia facilitar o acesso de alimentos em todo o mundo. Além disso, manobras políticas que almejam a sua lucratividade deixam de fora questões relativas à soberania alimentar e a erradicação da fome. Veja então, três razões pelas quais o Agronegócio no Brasil não é sinônimo de comida no prato de todos os brasileiros: 

  1. COMMODITY NÃO É SINÔNIMO DE COMIDA NO PRATO

Uma estimativa da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) aponta que o mundo produz hoje mais de 2,74 bilhões de toneladas de grãos, e essa quantidade seria o suficiente para alimentar a população mundial. Porém, o agronegócio é um modelo que não tem a perspectiva principal de alimentar pessoas, e sim de produzir mercadorias para exportação de algumas culturas, as famigeradas commodities, que são matérias-primas básicas produzidas em larga escala, negociadas mundialmente e com grande valor comercial e econômico. Essas mercadorias servem de base para a fabricação de outros produtos com maior valor agregado. 

Por exemplo, o Brasil é o maior produtor e exportador de soja, respondendo pela produção da metade da oleaginosa consumida globalmente. A safra nacional de soja em 2020/2021 foi estimada em 135 milhões de toneladas e bateu recordes de exportação em 2021, com 83 milhões de toneladas enviadas a outros países.

Pixabay

Nesse contexto, engana-se quem pensa que esse montante vai alimentar outras populações: conforme dados levantados pela AgroStat, das 135 milhões de toneladas de soja produzida pelo país, 12% foi exportada já processada como farinha e óleo, e os 55% dos grãos in natura produzidos e enviados para exportação também serão processados e utilizados para atender principalmente a demanda agropecuária – na engorda dos animais explorados na indústria alimentícia. Ou seja, apenas uma pequena parcela da soja in natura produzida nos 36 milhões de hectares de território brasileiro é destinada ao consumo direto das famílias brasileiras. 

Quando a soja chega na nossa mesa, geralmente está associada a alimentos processados e ultraprocessados, o que não contribui significativamente com a qualidade de nutrientes para um estado de segurança alimentar. Além disso, a soja e o milho são duas das culturas que mais utilizam agrotóxicos no Brasil, justamente para atender essa alta demanda da agropecuária, e estão intrinsecamente associadas a altos níveis de desmatamento. 

  1. INFLAÇÃO E ESTAGNAÇÃO DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS NÃO É SINÔNIMO DE COMIDA NO PRATO

Nesse contexto de maior lucratividade com a exportação de commodities, a produção de alimentos para o mercado interno é menos vantajosa. A produção nacional de arroz, por exemplo, tem permanecido estancada frente à elevação dos custos da indústria de alimentos durante a pandemia, à alta dólar e às baixas nas safras em decorrência de fatores climáticos, como as secas e geadas. Todos esses fatores justificam o aumento dos valores dos alimentos da cesta básica, o que deixa o acesso dos consumidores mais vulneráveis cada vez mais escasso. 

Foto: Alex Capuano/CUT/Divulgação

Além disso, a produção de carne utiliza uma parcela muito grande de território – com o pasto e as monoculturas – que poderia ser ocupado pela produção de alimentos diversificados. O Brasil é o maior exportador de carne bovina no mundo, e mesmo assim, 67% dos brasileiros cortaram o consumo de carne vermelha por conta da inflação, do desemprego e do empobrecimento. 

  1. DESMONTE DA AGRICULTURA FAMILIAR NÃO É SINÔNIMO DE COMIDA NO PRATO

Você sabia que o presidente Jair Bolsonaro vetou quase integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20? O projeto dispunha de importantes medidas emergenciais aos agricultores familiares do Brasil para mitigar os impactos socioeconômicos da Covid-19. Em uma canetada, o presidente vetou desde o auxílio emergencial a esses trabalhadores até a renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais.

Se por um lado  o presidente desvaloriza e desmonta políticas e programas de promoção da produção da agricultura familiar, por outro concede benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a créditos e financiando dívidas de grandes produtores rurais.

Foto: Agência Brasil

Esse enfraquecimento da agricultura familiar não é nada bom para a segurança alimentar, afinal a agricultura familiar ainda é responsável por garantir boa parte da alimentação da população brasileira. Dados da Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo (SAF) apontam que a agricultura familiar é responsável por 70% do que se consome no país, e diferentemente do que acontece no contexto do agronegócio, que prioriza a produção de commodities, na agricultura familiar o que predomina é a policultura, possibilitando pavimentar o caminho para a erradicação da fome (se com o apoio de políticas públicas).,

A insegurança alimentar é um grande desafio para o Brasil. Enquanto práticas que contribuam para a produção de diversidade de alimentos e a soberania alimentar não sejam aplicadas e asseguradas, teremos o aumento da fome. O agronegócio, pela sua potência inquestionável, deveria cumprir a máxima que diz “o agro brasileiro alimenta o mundo”, considerando a qualidade e o acesso aos alimentos, respeitando a democratização do uso de terras para outras produções, como as da agricultura familiar, e exigindo sempre uma distribuição justa de recursos. O agro só poderá ser considerado “pop” se for realmente pensado para a população. 

E aí, o que você acha? Deixe seu comentário e vamos ampliar este diálogo. 

frangos

Com avanço de cepa da gripe aviária milhares de animais são abatidos

Sacrificar milhões de animais confinados em sistemas de produção para conter cepas de vírus da gripe aviária é um placebo para problema recorrente – e os animais não deveriam estar pagando com suas vidas. 

A humanidade parece não seguir o sábio ditado popular que diz  “é melhor prevenir do que remediar”. Vivemos nossas vidas com a pretensa segurança de que “para tudo tem remédio”, mas além disso não ser verdade, essa ideia afrouxa nossos esforços políticos na revisão e contenção de práticas humanas que comprovadamente suscitam o surgimento de diversas doenças como, por exemplo, a influenza aviária, conhecida popularmente como gripe aviária.

Desde o último trimestre de 2021, um novo surto de gripe aviária vem acometendo a Europa que soma, até a finalização deste texto, 950 criadouros contaminados. No início de janeiro de 2022 o Reino Unido registrou sua primeira infecção humana de gripe aviária da cepa H5N1, popularmente conhecida como a gripe do frango, uma das poucas cepas de gripe aviária que passam para humanos (por enquanto). Ela tem alta taxa de letalidade e já matou, desde 2003, 456 pessoas no mundo, metade das pessoas que foram infectadas, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Mas se é gripe do frango, por que ela afeta humanos? Veja a explicação da Médica Veterinária Patrycia Sato: 

Apesar de vários fatores contribuírem para a disseminação da influenza aviária e o surgimento de diversas variantes, como a migração natural de aves, a venda de animais silvestres vivos, o comércio global e o deslocamento internacional de pessoas, é inegável que a pecuária intensiva é terreno fértil para a propagação de doenças. A interação prolongada entre homens e outros animais nos sistemas de produção lotados em espaços diminuto, medidas de biossegurança negligenciadas, invasão contínua das terras agrícolas em áreas selvagens, e o uso indiscriminado de antibióticos são alguns dos fatores que tornam os sistemas de criação intensivos um campo minado para o surgimento de doenças. 

A contaminação laboral é um ponto preocupante, já que é no contato direto entre o animal que uma pessoa pode ser contaminada, e vice-versa. Nas aves, o vírus da influenza ​​é  eliminado nas fezes e nas secreções respiratórias e pode ser transmitido através do contato direto com secreções de aves infectadas, ou por  fezes,alimentos e água contaminados, além depermanecer por muito tempo no ambiente, podendo inclusive se espalhar por objetos (sapatos, roupas, equipamentos), tornando os humanos que trabalham nos galpões alvos mais propensos de contrair o vírus. 

frangos
We Animal Media

Ainda que H5N1 tenha baixa transmissibilidade entre humanos e ainda representa riscos baixos à saúde pública, quando um surto de gripe aviária acontece, outras milhões de vidas serão impactadas: as das próprias aves. A transmissibilidade entre elas é altíssima, e mesmo as que não morrem pela doença são abatidas, saudáveis ou não, para conter a disseminação do vírus. Ainda que a legislação permita esse tipo de manejo, o abate em massa de animais aborda apenas os sintomas do surto, não ataca a raiz da questão, fere o bem-estar animal (já que dificilmente o abate humanitário será aplicado) e não sugere o enfrentamento necessário para prevenir outros surtos. 

E o que mais parece alarmar a indústria e os governantes é o prejuízo econômico que a contaminação poderá causar, como restrições comerciais,  perda de toneladas de carne e até a recusa das pessoas em consumirem esse tipo de alimento. Apesar dessas serem preocupações importantes dentro do aspecto socioeconômico, por que as imagens de milhares de animais sendo descartados – as verdadeiras vítimas da gripe até agora – não chocam?

Entre 2003 e 2007, mais de 20 países da Ásia, África e Europa registraram casos de gripe aviária em animais e estima-se que pelo menos 200 milhões de aves domésticas (de uma população mundial total de 10 bilhões) morreram ou foram abatidas como resultado do H5N1. Neste surto atual, notícias já apontam para números expressivos de mortes de aves. 

Por enquanto, as cepas de influenza que estão circulando no Brasil são a H1N1 e H3N2,. Porém, se não exigirmos sistemas de produção menos nocivos aos animais, ao meio ambiente e aos humanos, as variantes continuarão se adaptando e poderão implicar em epidemias e até pandemias altamente letais. Além disso, são necessárias atitudes menos antropocêntricas da nossa parte para os animais, que além de morrerem aos milhões diariamente em sistemas de produção para o consumo humano, são as maiores vítimas dessa gripe, e não os algozes. 

Inscreva-se no nosso Canal do YouTube para vídeos exclusivos sobre os animais e o meio ambiente. 

antropocentrismo

O que é Antropocentrismo (e por que devemos minimizá-lo)

Pensamento filosófico que considera os humanos superiores à natureza e a outros seres é prejudicial e merece ser ativamente confrontado nos próximos anos.

Se você nunca ouviu falar desse conceito, é melhor se atualizar, porque estamos arraigados a ele até o último fio de cabelo. Cabelo este que foi lavado com xampu embalado em plástico não reciclável, testado em animais, e repleto de microplásticos em sua composição que descem pelos ralos e poluem rios e oceanos, o que afeta ecossistemas inteiros e, em última instância, a vida na Terra. Achou complexo? É que além de um conceito, o antropocentrismo também é o modus operandi da humanidade há séculos – mas já passou da hora de refletirmos sobre um novo modelo de coexistência, não acha?

antropocentrismo
“A Criação de Adão” de Michelangelo

O antropocentrismo é uma concepção que coloca os humanos como centrais e únicos detentores de posição moral, sendo-lhes, por isso, tratados sempre como prioridade. Isso sustenta que a vida humana tem valor intrínseco (valor em si mesma), enquanto outras entidades (incluindo animais não-humanos, plantas e afins) são percebidas como recursos instrumentais que podem ser justificadamente explorados para o benefício da humanidade.

Esse modo de ver e viver a vida tem levado a exploração dos recursos naturais e de outros indivíduos além do limite máximo da capacidade da Terra, desconsiderando o valor e os interesses de tudo que não é o humano. E o humano, como sabemos, consome muito com muita desigualdade social, produz além do necessário e descarta rapidamente (e incorretamente) tudo que não atende mais a seus interesses e necessidades. Não à toa temos vivido tantas catástrofes globais, mudanças climáticas e epidemias – na era do Antropoceno, as atividades humanas irresponsáveis atiram para todos os lados, inclusive para o nosso próprio pé. 

Além disso, essa visão de mundo tóxica leva os humanos a traçar distinções entre as espécies animais, o que chamamos de especismo. Por exemplo, a maioria dos humanos não gostaria de ver seus cães serem tratados da maneira como os porcos são tratados na indústria alimentícia, embora os suínos sejam capazes de sentir a mesma dor e sofrimento que os caninos. Essa visão não parece, no mínimo, contestável?

antropocentrismo
Reprodução DOPE MAganiz /Arte de Want Some Studio

Fica aqui a reflexão: será o antropocentrismo uma atitude que devemos alimentar em 2022?

Nós da Alianima acreditamos veementemente que não e, por isso, seguimos atuando na contramão desse modo de estar no mundo. Resistimos para coexistir! Vamos juntos nessa?

Além disso, essa visão de mundo tóxica leva os humanos a traçar distinções entre as espécies animais, o que chamamos de especismo. Por exemplo, a maioria dos humanos não gostaria de ver seus cães serem tratados da maneira como os porcos são tratados na indústria alimentícia, embora os suínos sejam capazes de sentir a mesma dor e sofrimento que os caninos. Essa visão não parece, no mínimo, contestável?

Fica aqui a reflexão: será o antropocentrismo uma atitude que devemos alimentar em 2022?

Nós da Alianima acreditamos veementemente que não e, por isso, seguimos atuando na contramão desse modo de estar no mundo. Resistimos para coexistir! Vamos juntos nessa?

dieta à base de vegetais 2022

Ano novo, hábitos novos: veja 5 dicas de como adotar uma alimentação à base de vegetais em 2022

A chegada de um novo ano é sempre uma oportunidade de mudança, de repensar hábitos antigos e de plantar sementes de boas intenções para um novo ciclo. 

dieta à base de vegetais 2022

Com a pandemia, percebemos que estamos todos interconectados e que as nossas escolhas diárias exercem grande influência sobre o outro e o meio ambiente. 

Então, que tal aproveitar esse momento de reflexão para adotar hábitos alimentares mais saudáveis e responsáveis?

Dar preferência a diferentes tipos de alimentos de origem vegetal e limitar o consumo de alimentos de origem animal contribui indiretamente para um sistema alimentar socialmente mais justo e menos estressante para o ambiente físico, para os animais e para a biodiversidade em geral.

Sabemos que deixar de consumir ou reduzir o consumo de alimentos de origem animal pode ser um desafio. Por isso, te convidamos a olhar para suas escolhas alimentares sob uma nova perspectiva e esperamos que estas dicas te inspirem no processo:

  1. Amplie o seu leque de opções antes de fazer restrições

Uma boa dica antes de restringir grupos alimentares da dieta é incluir mais opções de vegetais, frutas e leguminosas no seu dia a dia, alimentos que devem ser a base da sua alimentação. Planeje suas compras e busque frequentar feiras e locais que comercializam variedades de alimentos in natura ou minimamente processados, dando preferência aos alimentos da estação e cultivados localmente.

Reduza o consumo de carnes e derivados aos poucos e lembre-se de que não há regras, vá no seu tempo e dentro das suas possibilidades. Você pode optar por retirar primeiro de uma refeição ou de algum dia da semana ou da forma que você se sentir mais confiante.

  1. Informe-se!

Informação é poder e a internet pode ser uma ótima ferramenta para agregar conhecimentos sobre o tema. Uma alimentação à base de vegetais bem planejada e, se necessário, suplementada, é reconhecida mundialmente por órgãos internacionais de saúde como sendo saudável, nutricionalmente adequada e promotora de benefícios à saúde. Além disso, é uma forma efetiva de gerar menos impacto sobre o meio ambiente e de preservar os nossos recursos naturais, enquanto prevenimos o desenvolvimento das principais doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.

Se desejar se aprofundar sobre os benefícios dessa alimentação, busque por livros, documentários, especialistas sobre o assunto e se inspire em quem está percorrendo o mesmo caminho que você.

Outra dica útil é pesquisar locais que servem boas opções de pratos à base de plantas e de marcas de produtos isentos de componentes de origem animal.

dieta à base de vegetais 2022
  1. Busque orientação de um profissional da saúde

O acompanhamento feito por um profissional da saúde capacitado, e que respeite a sua escolha, irá te ajudar a ajustar o plano alimentar de acordo com as suas necessidades e a sanar as dúvidas que surgirem ao longo do processo. É sempre bom estar com os exames em dia para avaliar a necessidade de adequação nutricional ou suplementação alimentar. É altamente recomendável que esse acompanhamento seja feito independentemente das escolhas alimentares, mas já que estamos falando em novos hábitos, é válido ressaltar esse ponto. Muitas pessoas que “comem de tudo” tendem a pensar que estão tendo uma alimentação balanceada, o que pode ser um tremendo equívoco!

  1. Descubra novos sabores e seja criativo na cozinha

Busque por receitas que te inspirem e se permita testar novas combinações na cozinha. O mundo vegetal é um infinito de possibilidades e você vai descobrir deliciosos e diferentes sabores! É possível adaptar seus pratos favoritos sem ingredientes de origem animal e resgatar a memória afetiva de receitas de família apenas fazendo algumas substituições. Aprender a ler rótulos também é importante para se assegurar do que você está consumindo.

  1. Seja pragmático e pegue leve com você mesmo

Para além de qualquer rótulo, cabe lembrar que as nossas escolhas são construídas diariamente. Buscamos não a perfeição, mas sim excluir, na medida do possível e do praticável, formas de exploração e crueldade contra os animais não apenas na alimentação, mas também no vestuário, em cosméticos, no entretenimento e em outras esferas de consumo. Explore alternativas mais éticas em outras áreas da sua vida e faça o que estiver ao seu alcance hoje.

Tomar atitudes que nos possibilitam viver de acordo com os nossos valores é uma baita resolução de ano novo, hein? Seja pelos animais, pelo meio ambiente ou pela sua saúde, o importante é identificar o que te motiva a fazer essa mudança e seguir em frente! 

Você está pronto para dar o primeiro passo? Baixe aqui nosso e-book gratuito com receitas à base de vegetais e comece a se inspirar!

Feliz novos hábitos!