Amazônia de Pé

“Amazônia de Pé” defende que a preservação desse bioma está em nossas mãos

Projeto de Lei de iniciativa popular destina as florestas públicas da Amazônia para proteção dos povos indígenas, quilombolas, pequenos produtores extrativistas e Unidades de Conservação

A devastação da Amazônia tem batido recordes nos últimos anos: segundo a mais recente edição do Relatório Anual de Desmatamento no Brasil (RAD), do MapBiomas, foram mais de 977 mil hectares de vegetação nativa da Amazônia destruídos em 2021- um crescimento de quase 15% em relação aos 851 mil hectares desmatados em 2020 que, por sua vez, já haviam representado um aumento de 10% em relação aos 771 mil hectares de desmate em 2019. A boa notícia é que na contramão desse ritmo destrutivo tem um movimento popular disposto a garantir às nossas florestas a proteção que elas merecem, priorizando a conservação ambiental e a justiça social. 

Recebemos no quadro “Papo Reto” a bióloga e ambientalista maranhense, Karina Penha, atualmente Coordenadora de Mobilização da campanha Amazônia de Pé, Projeto de Lei o qual a Alianima apoia e é signatária, que destina os quase 50 milhões de hectares aos verdadeiros Guardiões da Floresta. Assista e participe: 

Para mostrar ao Congresso Nacional que proteger a Amazônia é uma prioridade dos brasileiros, é necessário que 1 milhão e meio de pessoas se comprometam com o futuro da floresta e assinem o Projeto! Acesse amazoniadepe.org.br e seja co-autor desse importante movimento. 

-> Karina Penha é bióloga e ativista socioambiental maranhense. Atualmente é Coordenadora de Mobilização da campanha Amazônia de Pé na Organização NOSSAS, onde idealizou o MUVUCA – Programa de Ativismo Climático para Juventudes Amazônicas. 

->  Sobre o quadro “Papo Reto – Ecoando Diálogos sobre temas urgentes”: a cada mês, convidamos um especialista para destrinchar determinados conceitos dentro de pautas alimentares, animais e socioambientais, por meio de reflexões transversais e fáceis de entender. Veja todos os episódios aqui. 

salmão

5 fatos surpreendentes que você deve saber antes de comer salmão

Antes de comer o próximo sushi a preços duvidosos ou pedir uma fina posta de salmão ao molho de maracujá, veja como o consumo desse peixe no Brasil carrega questões relacionadas à saúde e à falta de conhecimento, além de problemas ambientais e de bem-estar animal 

5 fatos surpreendentes sobre o salmão

O salmão é um peixe muito apreciado pela culinária brasileira e, convenhamos, superestimado também. Pintado pela indústria e impulsionado pela publicidade como um alimento saudável, prático, versátil e até mesmo chic, ouvimos nas feiras livres que ele “é fresquinho, freguês”, e no supermercado é possível encontrá-lo junto a outras carnes de pescado com esse mesmo adjetivo. No entanto, o que poucos sabem é que os salmões consumidos aqui no Brasil são trazidos de longe, provenientes de sistemas de criação intensivo (confinado) do Chile, há milhares de quilômetros daqui. Esse sistema é realizado diretamente no oceano, o que causa sérios impactos negativos, tanto para o bem-estar desses animais como para o meio ambiente. Além disso, esses peixes têm problemas de saúde, recebem grande quantidade de substâncias artificiais ou tóxicas e são alimentados com ração de restos de outros peixes, ou seja, nada sustentável. 

Assim, o salmão que mais encontramos à venda aqui no Brasil em feiras e supermercados, que é o salmão do Atlântico (Salmo salar), carrega diversos problemas, inclusive relacionados à saúde pública. Veja 5 fatos surpreendentes que você deve saber antes de comer salmão:

1- Alô, alô freguesia! Salmão fresquinho (só que não)! 

Já se deparou com o salmão sendo vendido como fresco no Brasil? Pois é, acontece que estão te enganando. O salmão do Atlântico é encontrado naturalmente na região norte do oceano Atlântico, tanto no lado europeu quanto no lado norte-americano, ocorrendo também ao redor das ilhas do Atlântico Norte, como o Reino Unido, a Islândia, e a Groenlândia. Ou seja, não existem salmões nativos em águas brasileiras. Por ser um peixe de água fria, também não existem, até hoje, fazendas de produção de salmão no Brasil. O salmão que se consome aqui é, em sua grande maioria, importado do Chile, sendo proveniente de fazendas de produção que se desenvolveram a partir da introdução dessa espécie no país.

Para que os salmões do Atlântico criados no Chile cheguem até o Brasil, podem ser transportados de avião, mas muitas vezes acabam sendo transportados em caminhões refrigerados por milhares de quilômetros, podendo levar dias e dias para chegar aqui, dependendo da região, ou seja, nada frescos! 

2 – Salmão vendido no Brasil é colorido artificialmente.

Salmão que não é da cor salmão? Te explicamos! A cor avermelhada, que é uma característica marcante dos peixes conhecidos popularmente como salmão, vem da alimentação desses animais na natureza. Os salmões são peixes carnívoros que, em ambientes naturais, alimentam-se basicamente de insetos aquáticos, outras espécies de peixes e de crustáceos, incluindo camarões. Esses crustáceos são animais que se alimentam de algas ricas em astaxantina – um carotenoide de cor rosa-avermelhada. É esse carotenoide das algas, presentes nos crustáceos dos quais os salmões se alimentam, que é responsável pela coloração avermelhada característica desses peixes. Ou seja, o salmão não nasce com essa cor, mas ele vai adquirindo essa coloração conforme vai crescendo, alimentando-se e se desenvolvendo. 

Mas, quando os salmões são criados em cativeiro, eles comem ração em vez dos crustáceos ou de outros animais que estão acostumados a predar na natureza. Assim, para efeitos estéticos que agradem o consumidor, os produtores adicionam um corante artificial, ou seja, uma astaxantina sintética, à ração oferecida aos peixes em sistemas de produção. Sem isso, a carne do salmão cultivado seria branca, como no caso de outros peixes. 

3 – Ração aditivada com antibióticos 

Os salmões chilenos são cultivados em sistemas intensivos de criação, mais especificamente em tanques-rede que se assemelham a ‘gaiolas’ flutuantes no mar. Nesses sistemas, em que os peixes são mantidos em altas densidades, não é difícil imaginar que o surgimento e a propagação de doenças possam ocorrer facilmente. Para evitar esse problema, os produtores acabam usando uma quantidade muito elevada de antibióticos na ração que oferecem aos salmões. Isso é prejudicial para a saúde dos peixes, para a saúde das pessoas que se alimentam desses salmões e também para o ambiente marinho. 

O uso desenfreado de antibióticos na ração aumenta consideravelmente a chance do aparecimento das famosas ‘superbactérias’, que resistem a medicamentos comuns usados no tratamento de doenças em seres humanos. Ou seja, isso envolve questões importantes de saúde pública, como já alertado por outras organizações, como a Oceana. Tudo errado!

4 – Salmão pode ter… piolhos!

O piolho do mar é o nome popular de um pequeno crustáceo parasita que pode se alojar externamente na pele dos peixes. Esses ‘piolhos’ podem parasitar salmões e é claro que quando esses peixes ocorrem em altas densidades – como no casos dos sistemas intensivos de produção no Chile – o problema de infestação pode ser bem pior. Esses pequenos crustáceos se alimentam da pele e do muco dos seus hospedeiros, sendo que salmões parasitados ficam com seu bem-estar prejudicado e também mais susceptíveis a doenças, podendo até morrer em função da infestação desses parasitas. Esse é um grande problema nas fazendas de produção, que inclusive pode gerar aumento no preço do salmão.

Essa questão também coloca em risco a qualidade do alimento que chega ao prato das pessoas, pois até pesticidas são usados na tentativa de eliminar os parasitas. Os produtores chegam a cultivar espécies de peixes conhecidos como ‘limpadores’ – que se alimentam desses parasitas – junto com os salmões, mas ainda não existe uma maneira totalmente eficaz de resolver esse problema nas fazendas. 

5 – Truta salmonada disfarçada de salmão?

Embora no Brasil não seja possível pescar nem produzir salmão, é possível criar trutas, que são peixes da mesma família dos salmões, os salmonídeos. E há espécies de trutas que são muito similares aos salmões, como a truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss). Aqui no nosso país, é possível encontrar as ‘trutas salmonadas’, que nada mais são do que trutas arco-íris criadas em sistemas de produção que passaram pelo processo de ‘salmonização’. Esse processo basicamente se refere à ingestão de ração que contém o corante artificial astaxantina. Assim como no caso do salmão cultivado, quando a truta se alimenta dessa ração com corante em cativeiro, ela desenvolve, de forma artificial, a coloração alaranjada típica do salmão. 

E tem mais: embora a truta salmonada seja corretamente identificada para o consumidor em alguns casos, como ela tem uma coloração semelhante ao salmão, mas é mais barata, acaba sendo vendida como se fosse o próprio salmão! E aí os consumidores acabam sendo enganados mais uma vez!

Chocou? Calma que ainda não acabou! 

Impacto ambiental

O cultivo de salmões em sistemas intensivos de produção também traz sérios problemas para o meio ambiente. A alimentação dos salmões nesses sistemas é uma ração feita à base de farinha e óleo de peixe com a já mencionada adição de corantes e antibióticos. Como nesses sistemas os peixes estão em ‘gaiolas’ no mar, uma grande quantidade de dejetos e substâncias potencialmente danosas provenientes das rações é despejada diretamente no ambiente, trazendo sérios prejuízos para o ecossistema marinho. Sem contar que, para produzir 1 kg dessa ração, são necessários entre 3 a 5 kg de peixes, uma equação nada sustentável para o equilíbrio ambiental.

Outro sério problema ambiental são os escapes dos salmões. Como as ‘gaiolas’ de cultivo estão dentro do oceano, alguns peixes podem escapar em regiões onde não ocorrem naturalmente, como é o caso das águas chilenas. Salmões são peixes carnívoros e naturalmente agressivos – defendem territórios, e caso escapem, podem acabar predando animais da fauna local e competindo com outras espécies de peixes, chegando até mesmo a transmitir doenças e parasitas – como os piolhos do mar – para essas espécies.   

Sérios problemas de bem-estar animal

Outro grave problema se refere ao bem-estar dos próprios salmões. Além da questão das densidades muito elevadas em que são submetidos nesses tanques-rede flutuantes e de ingerirem corantes artificiais e antibióticos sem necessidade, os salmões também são impossibilitados de exercer outros comportamentos naturais dentro de cativeiros, tais como predação e migração.

E se o salmão não migra, ele também não consegue se reproduzir naturalmente. Você deve se lembrar que o salmão é conhecido por ser uma espécie super migratória em vida livre, capaz de migrar por milhares de quilômetros para se reproduzir, uma verdadeira epopeia aquática que começa na água salgada e termina na água doce. Nos tanques flutuantes em que são mantidos, esse extraordinário comportamento do salmão acaba sendo restrito ao diâmetro do tanque.

Da próxima vez que você cogitar comer salmão, drible o marketing, lembre-se desses 5 fatos surpreendentes e faça escolhas coerentes com o que você acredita.

Quer saber mais sobre a importância do bem-estar dos peixes? Acesse gratuitamente a publicação da Alianima ‘Por que e como melhorar o bem-estar de peixes’

desperdício de alimentos

Desperdício de alimentos: o problema também é nosso

Os efeitos do descarte doméstico de comida são mais catastróficos do que você imagina, e é preciso contra-atacar essa cultura antes que seja tarde demais

Atestar que somos uma sociedade que desperdiça alimentos constantemente, apesar de inseridos em um contexto de fome nacional, é uma tarefa amarga, mas não complicada, afinal, basta uma breve conferida no lixo da sua casa ou na lixeira da rua para observar a quantidade de comida que não irá cumprir mais o papel de nutrir e sustentar. Grande parte da população que vive em situação de segurança alimentar e que desperdiça alimentos não foi educada a valorizar os mantimentos disponíveis, portanto, acaba muitas vezes jogando-os no lixo por muitos motivos, seja pela falta de planejamento ou por ignorar como utilizá-los e descartá-los da melhor forma. A má notícia é que essa falta de consciência traz consequências graves que extrapolam o ambiente doméstico.

desperdício de alimentos

O que comemos não chega aos mercados e feiras magicamente – é preciso sempre lembrar que uma série de recursos preciosos são utilizados na produção de alimentos, como terra, água, energia, dinheiro, mão de obra, entre outros que, quando desperdiçados, geram impactos de proporções trágicas, como aponta estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente (PNUMA): “o desperdício sobrecarrega os sistemas de gestão de resíduos e amplia a insegurança alimentar, contribuindo para as três crises planetárias: a mudança climática, a perda da biodiversidade e o aumento da poluição”. Ou seja, o desperdício gera impactos ambientais, sociais e econômicos significativos que precisam ser combatidos não só por empresas e governos, mas também pelos cidadãos, que têm papel fundamental nesse processo, já que a maior parte do desperdício acontece nas etapas de varejo e consumo. O relatório mostra que 931 milhões de toneladas de alimentos, ou 17% do total de alimentos disponíveis aos consumidores em 2019, são desperdiçadas no mundo anualmente, sendo 11% em domicílios e 5% e 2% em serviços alimentares e estabelecimentos, respectivamente.

Em todo o mundo, mais de 10% das pessoas passam fome e evidências sugerem que o problema que enfrentamos hoje não é a falta de alimentos. Pelo contrário, é um problema relacionado à ineficiência do sistema alimentar. Ao todo, perdemos um terço dos alimentos produzidos no mundo, cerca de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos – entre a fazenda e a mesa, durante as etapas de armazenamento, transporte, processamento, embalagem, venda e preparo. 

A população mundial deve crescer em duas bilhões de pessoas nos próximos 30 anos, e o desafio de alimentá-la é grande e envolve também o combate ao desperdício. Portanto, é importante que cada pessoa tome atitudes eficientes hoje para combatê-lo. Veja no vídeo 4 dicas de como evitar o desperdício de alimentos no dia a dia para que você faça a sua parte nessa luta. 

ecofeminismos

Ecofeminismos: você já ouviu falar?

Convidamos a Professora Dra. Maria Alice da Silva para mandar um papo reto sobre essa corrente ética e filosófica que carrega 2 importantes conceitos: o eco e o feminismo. 

Você já parou para pensar como a dominação e objetificação do meio ambiente, dos animais não-humanos e do gênero feminino estão relacionadas? Todas essas diferentes formas de exploração estão interconectadas porque partem de uma lógica de dominação exercida por uma parcela de poder que ocupa o topo das relações hierárquicas construídas socialmente: a dos humanos, do gênero masculino, especialmente os brancos heteronormativos. O que os ecofeminismos propõem é uma crítica interseccional a essa dominação feita à natureza, tal como é feita com o gênero feminino e a outros sistemas de opressões, e propõe formas de agirmos eticamente em combate a elas. 

Para explicar mais sobre os ecofeminismos, veja o Papo Reto que a Maria Alice da Silva mandou:  

->  Maria Alice da Silva é professora e doutora em ética e filosofia política pelo PPGFil da UFSC e graduada em filosofia. É autora do livro “Direitos animais, fundamentos éticos, jurídicos e políticos” publicado em 2020 pela ape’ku e organizou a obra “Animalidades” (2021). Foi professora no departamento de filosofia da UFSC e hoje é professora autônoma por meio da plataforma de ensino “Aulas da Maria Alice”. Além disso, é sócia-fundadora do espaço sócio-esportivo Aldeia da Conceição onde pratica sua filosofia. 


->  Sobre o quadro“Papo Reto – Ecoando Diálogos sobre temas urgentes”: a cada mês, convidamos um especialista para destrinchar determinados conceitos dentro de pautas alimentares, animais e socioambientais, por meio de reflexões transversais e fáceis de entender. Veja todos os episódios aqui. 

superbactérias

O que são as superbactérias?

Auditora Fiscal do Ministério da Agricultura (MAPA), Lizie Buss, conta no quadro “Papo Reto” o que são as superbactérias e sobre os perigos da resistência antimicrobiana, esse problema microscópico mas de proporções globais. 

Há diversos tipos de doenças infecciosas no mundo que são tratadas com antimicrobianos, principalmente as de origem bacteriana. As bactérias são microrganismos que possuem diversos mecanismos de adaptação para sobreviver, como por exemplo, uma mutação genética que as tornam resistentes aos antimicrobianos, em outras palavras, não são mais eliminadas por esses medicamentos, tornando-se superbactérias”. O uso equivocado desses fármacos, tanto na saúde humana, mas principalmente na criação de animais na pecuária, tem acelerado esse fenômeno, e só em 2019, cerca de 1,2 milhão de pessoas morreram por doenças causadas por superbactérias. 

Para explicar mais sobre as superbactérias convidamos a Médica Veterinária e Auditora Fiscal do Ministério da Agricultura (MAPA), Lizie Buss. Veja só o Papo Reto que ela mandou:  

Quer saber mais sobre esse assunto?

Baixe a cartilha gratuita disponível em www.alianima.org/superbacterias 

-> Lizie Buss é médica veterinária e Auditora Fiscal do Ministério da Agricultura (MAPA), tendo atuado com inspeção e saúde pública em estabelecimentos de abate exportadores; no Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal com análises de demandas industriais, missões internacionais, certificações, normatização e bem-estar animal. Assumiu a CTBEA – Comissão Técnica Permanente de Bem-estar Animal do Ministério da Agricultura em 2013 até sua reformulação em 2017. Foi ponto focal da OIE para bem-estar animal no Brasil no ano de 2015/2016, membro da Comissão de Bem-estar Animal do CFMV e hoje atuo na Coordenação de Boas Práticas e Bem-estar Animal (CBPA/SDI/MAPA)

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nutricídio

Nutricídio é o genocídio da população negra via alimentação e deve ser combatido

Dra. Aza Njeri aborda no quadro “Papo Reto” o conceito de Nutricídio e seus recortes dentro do contexto brasileiro atual 

O termo “Nutricídio”, elaborado e cunhado pelo médico americano Llaila Afrika, trouxe diversas contribuições relevantes para pensarmos sobre a alimentação da população negra de todo o mundo. No Brasil de 2022, que volta a enfrentar a fome diante de um cenário de inflação de alimentos que pressiona os mais pobres a comerem menos e pior, o genocídio via alimentação de uma parte da população é uma triste realidade. 

Para explicar e refletir sobre o conceito de Nutricídio, convidamos a Professora e Doutora Aza Njeri. Veja só o Papo Reto que ela mandou:  

->  Aza Njeri é Doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora de África e Afrodiáspora no que tange cultura, história, literatura, filosofia, teatro, artes e mulherismo africana. Coordena o Núcleo de Estudos Geracionais sobre Raça, Arte, Religião e História do Laboratório de História das Experiências Religiosas (UFRJ) e o Núcleo de Filosofia Política Africana do Laboratório Geru Maa (UFRJ). É Professora nos cursos de graduação e pós-graduação de Engenharia e Psicologia na Universidade Geraldo Di Biasi. Desenvolve trabalho de interface e crítica teatral e literária, com artigos críticos publicados em sua coluna semanal no site Rio Encena e na coluna quinzenal no Blog.G, além de integrar o premiado Segunda Black, o Grupo Emú e o Fórum de Performance Negra do Rio de Janeiro. ​Possui um Canal no Youtube para a divulgação e conhecimento afroperspectivados sobre África e Afrodiáspora.

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zoonoses

Zoonoses podem gerar impactos desastrosos na Saúde Única global

Dra. Cynthia Schuck aborda no quadro “Papo Reto” a relação entre a pecuária intensiva, bem-estar animal, riscos de zoonoses, resistência antimicrobiana, entres outros temas 

Mesmo que você não saiba o que são as zoonoses, você já ouviu falar ou foi impactada por elas: raiva, ebola, tuberculose, botulismo, esporotricose, febre amarela, leishmaniose e algumas gripes… a lista de doenças infecciosas naturalmente transmissíveis entre animais humanos e não-humanos é extensa! Mas você sabe quais são os motivos que possibilitam os riscos de zoonoses e seus perigos para a Saúde Única

Para estimular o diálogo acerca deste tema tão importante, convidamos a Dra. Cynthia Schuck para mandar um “Papo Reto” para vocês! Assista: 

-> Cynthia tem doutorado em Zoologia pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e conduziu vários projetos de pesquisa para instituições de pesquisa na Europa, Estados Unidos e América do Sul sobre epidemiologia de doenças respiratórias e pandemias, cognição animal, e, mais recentemente, saúde e bem-estar dos animais de produção. Durante 15 anos foi diretora-fundadora de uma empresa de consultoria internacional na área de saúde global. Atualmente, é diretora do Welfare Footprint Project, uma iniciativa voltada ao cálculo da pegada de bem-estar de produtos de origem animal. Ela é autora de três livros, vários capítulos de livros e mais de 70 artigos científicos em revistas internacionais.  

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A cura da Terra

Manifesto denuncia avanço do desmatamento da Amazônia

Ação da ativista e comunicadora Samela Sateré-Mawé e Alianima celebram o Dia Mundial do Meio Ambiente 2022 com o manifesto “Povos Indígenas: A cura da terra”.

Para denunciar o avanço do desmatamento, especialmente nos territórios indígenas amazônicos, a ativista e comunicadora Samela Sateré-Mawé, em parceria com a Alianima, lançaram nesta quinta-feira (2) o vídeo-manifesto “Povos Indígenas: A cura da terra”. O conteúdo está sendo divulgado por meio das redes sociais da ativista e da Alianima e também no website www.alianima.org/acuradaterra.

A iniciativa visa chamar a atenção para esta questão urgente do avanço do desmatamento na Amazônia, que também estará na pauta do Dia Mundial do Meio Ambiente 2022, evento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) que será realizado no próximo domingo (5), em Estocolmo, na Suécia. Na edição deste ano, o evento terá como tema o mote ‘Uma Só Terra’. “Nossos territórios (e corpos) estão sendo ameaçados. Não apenas com o garimpo, mas também com o avanço diário da pecuária, que se desdobra em desmatamento, arrendamentos de terra e grilagem”, alerta Samela, que participará do evento do PNUMA, no dia 5, como comunicadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANIMIGA).

“Nossas terras estão sendo roubadas para criação de gado e monoculturas, como soja e milho. Nossa biodiversidade está sendo atacada pelo apetite voraz pela carne brasileira. Precisamos lembrar que nossa floresta está perdendo toda sua vivacidade para a pecuária, que incentiva desmatamento e queimadas”, diz Samela. De acordo com o Imazon, pelo menos 40% de toda a carne que os brasileiros consomem tem origem em fazendas localizadas na Amazônia Legal. Os pastos dedicados à pecuária ocupam cerca de 90% da área total desmatada, e mais de 90% do desmatamento é ilegal, complementam dados do projeto Amazônia 2030.

A expansão da fronteira agrícola pode ser explicada pelos baixos preços da terra na região e a maior produtividade das pastagens nos principais centros pecuaristas. O capital que patrocina esse avanço muitas vezes tem origem na exploração ilegal da madeira das áreas desmatadas. “Se tudo que fazemos é político, a forma como nos alimentamos também é. É preciso nos questionar diariamente se nossas escolhas pessoais não estão custando a vida de povos indígenas, de animais e de todo o meio ambiente. Somos parte do problema e também da solução”, afirma a ativista.

Veja o conteúdo na íntegra em www.alianima.org/acuradaterra (versão em inglês disponível).

petição genética frangos

Petição propõe regramento para a seleção genética dos frangos

Encabeçada pela Alianima, o documento endereçado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) propõe a regulamentação de critérios que proporcionem um ritmo de crescimento dos animais mais próximo do natural

O Brasil detém o título de maior exportador de carne de frango do mundo, ocupando a terceira posição no quesito produção, com uma cifra que supera a marca de 16,6 milhões de cabeças abatidas diariamente (IBGE). O que poderia ser motivo de orgulho esconde os efeitos cruéis do uso do melhoramento genético pela indústria da carne de frango. 

A tecnologia de seleção genética de frangos criados para abate consiste no cruzamento de aves com a seleção de características mais desejáveis, para que as próximas gerações tenham um ganho genético que proporcione um aumento da produtividade das granjas, com menor custo e maior rapidez. Na seleção, são priorizados o desenvolvimento da musculatura de peito e coxa, consideradas as partes mais lucrativas, além de induzir um crescimento acelerado dos frangos, em um ritmo até três vezes mais rápido que o natural. 

Na década de 50, um frango levava cerca de 70 dias para atingir um peso de 905g. Hoje, são necessários apenas 42 dias para que o animal passe de 60 gramas para 3 kg, peso considerado pela pecuária como ideal para o abate. O problema é que esse crescimento antinatural produz diversas sequelas aos animais, dado que os órgãos vitais e a estrutura óssea não acompanham o crescimento acelerado, levando as aves a apresentarem doenças metabólicas e locomotoras.

O excesso de peso pode provocar deformação nas pernas impedindo as aves de ficarem em pé e se locomoverem, impossibilitando-as de chegarem até comedouros e bebedouros, fazendo com que elas passem fome e sede. Fraturas e problemas de articulação também são frequentes. O coração e os pulmões são sobrecarregados com os músculos aumentados, provocando a morte súbita dos animais. Lesões de pele e patas também são comuns devido ao sobrepeso. 


O Brasil possui algumas definições legais sobre bem-estar animal, como instruções normativas que estabelecem normas de abate, mas não há regulamentos quanto à seleção genética. Para mudar esse cenário que, além de ineficaz, desconsidera mínimos padrões éticos em relação aos animais, as organizações de proteção animal Alianima, Animal Equality, Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Humane Society International, Mercy For Animals, Proteção Animal Mundial (World Animal Protection) e Sinergia Animal lançaram uma petição para solicitar que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) regulamente a seleção genética dos frangos, oferecendo aos animais o direito a crescer em um ritmo mais próximo do natural, proporcionando melhorias em questões de saúde e bem-estar.

Assine agora!

seleção genética de animais

Quando vamos traçar limites éticos para a seleção genética de animais?

Nós, humanos, temos nos relacionado com outras espécies animais há séculos. Cientistas acreditam que os cães foram os primeiros a serem domesticados. Por meio de relatos arqueológicos, sugerem que há mais de 14.000 anos temos estabelecido com eles uma cooperação mútua para caça, proteção e companhia. E aproximadamente 12.000 anos atrás, teríamos começado a domesticar outros animais, como carneiros, para deles obtermos carne, leite e lã.

Desde então, o caráter exploratório dos animais pelos humanos foi se acentuando. A partir do entendimento básico de hereditariedade, o ser humano começou a cruzar animais com características e/ou habilidades desejáveis, no intuito de mantê-las ou aumentá-las nos descendentes, promovendo o surgimento de raças com aptidões específicas, como cães mais adaptados para caça, ou cavalos mais mansos. 

Com o desenvolvimento da engenharia genética, desde meados do século XX, a seleção artificial tem sido altamente aplicada. Sobretudo em um cenário pós-Segunda Guerra Mundial, quando a produção de alimentos passou por um processo de intensificação para suprir uma população que voltava a crescer, a pecuária acompanhou a modernização agrícola, de modo a impulsionar ao máximo a produtividade. Dentre diversas tecnologias, a seleção genética foi uma forte aliada, uma vez que permitiu um crescimento acelerado dos animais, aumento na produção de leite, maior desenvolvimento de músculos para cortes de carne mais interessantes comercialmente, mais leitões nascidos por parto, entre outros.

As mudanças, mesmo que promovidas gradativamente, são exorbitantes. A produção de leite de algumas raças bovinas, como a Holandesa, mais que dobrou nos últimos 40 anos; as porcas, que antes geravam em torno de 7 filhotes a cada gestação, hoje dão à luz mais de 12 leitões que ganham muito mais peso em muito menos tempo, principalmente por maior desenvolvimento das áreas do lombo e do pernil; galinhas poedeiras que, de 15 ovos por ano, agora põem cerca de 300; e os frangos que, assim como os suínos, crescem muito mais rápido (até 3 vezes mais que o natural) e desenvolvem mais a musculatura de peito para atender o mercado. 

seleção genética de animais
Vaca da raça Holandesa com elevada produção de leite por seleção genética.
Fonte: Sinergia Animal

Entretanto, todas essas alterações nos corpos dos animais causam inúmeros prejuízos ao seu bem-estar. As vacas comumente manifestam problemas de saúde, como mastite (processo inflamatório bastante doloroso), laminite (inflamação nos cascos, chegando a mancar) e cetose (distúrbio metabólico). Os porcos apresentam maior mortalidade ao nascer, comportamento mais agressivo (lesionando uns aos outros), doenças metabólicas, sofrem muito mais com o calor, são mais vulneráveis ao estresse, e as reprodutoras frequentemente passam fome porque demandam mais energia e nutrientes para gerar mais filhotes. As aves poedeiras também ficam mais agressivas (há incidência de aves mortas em gaiolas por conta das bicadas) e sofrem de osteoporose por falta de cálcio, que é retirado dos ossos para produzir a casca dos ovos. Já os frangos apresentam doenças metabólicas, locomotoras e cardiovasculares, porque seu coração, pulmões, ossos e outros órgãos não acompanham o veloz crescimento dos músculos em apenas 42 dias, quando são enviados ao abate.

seleção genética de animais
seleção genética de animais
A linhagem genética comercial origina um porco mais pesado, com dificuldade de locomoção e quase sem pelos para se proteger do calor e do sol. Fonte: Starvet
seleção genética de animais
Frangos de corte atingem seu peso de abate aos 42 dias, apresentando diversos distúrbios.
Fonte: Oikeutta eläimille

Além do sofrimento causado aos animais, a justificativa do aumento da produtividade para alimentar uma crescente população humana é bastante questionável. Não apenas pelo fato da pecuária industrial promover drásticos impactos ambientais, mas também por ser um sistema de produção de alimentos extremamente ineficiente do ponto de vista energético: em média, para alimentar os animais criados para consumo, são usadas aproximadamente dez vezes mais calorias do que as contidas em sua carne. Portanto, as toneladas de grãos cultivadas, como a soja, o sorgo e o milho, necessárias para alimentar os bilhões de animais que são abatidos anualmente, poderiam ser destinadas de forma mais eficiente para alimentar diretamente a população humana. Fora que muitos desses produtos de origem animal não são economicamente acessíveis a todas as camadas sociais. Há muito gasto de energia, terras, água limpa, mão-de-obra, combustível para produzir e exportar/comercializar esses alimentos. E a aceleração da engorda dos animais não torna a atividade mais sustentável, visto que a indústria tende a produzir cada vez mais, e não a reduzir o seu impacto social e ambiental. 

Dado esse conflito ético e ineficácia, a saída então seria frear esse suposto melhoramento genético, a fim de originar animais que crescem em um ritmo mais próximo do natural, o que reduziria muitos problemas de saúde e bem-estar. Aliado a essa medida, é preciso compreender que o consumo de produtos de origem animal deve ser gradativamente reduzido pela população geral, porque o planeta não comporta mais sucessivos recordes de produção, e os animais não deveriam ser submetidos a tantas manipulações excruciantes para atender um hábito (não uma necessidade).

A Alianima atua para reduzir as piores práticas da pecuária industrial, como o uso de linhagens genéticas de crescimento rápido, além do alojamento em celas e gaiolas, e procedimentos dolorosos rotineiros na produção animal.

Referências

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