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21 de julho, 2026

Brasil pode perder protagonismo global se não avançar em compromissos de bem-estar animal para frangos de corte, aponta relatório

Análise inédita avalia informações públicas das 14 maiores empresas do setor e aponta lacunas em compromissos estruturados de bem-estar animal, alertando para riscos comerciais e reputacionais na avicultura brasileira 

O Brasil consolidou sua posição como maior exportador mundial de carne de frango e terceiro maior produtor global. Em 2025, o país abateu cerca de 5,7 bilhões de aves e produziu mais de 15 milhões de toneladas da proteína. Apesar desse protagonismo, nenhuma das principais empresas do setor divulga publicamente compromissos abrangentes com metas estruturadas que permitam classificá-las nos níveis mais avançados de transparência em bem-estar animal.

A conclusão é da terceira edição do Observatório do Frango, estudo da Alianima que analisou as informações públicas disponibilizadas pelas 14 maiores produtoras brasileiras sobre o tema. Com base nessa avaliação, o relatório propõe uma reflexão sobre os desafios da avicultura nacional diante das transformações do mercado global.

www.observatoriodofrango.com.br 

Segundo o levantamento, nenhuma empresa foi classificada nos níveis 4 ou 5 de maturidade em compromissos de bem-estar animal— patamares que representam metas estruturadas, indicadores públicos e alinhamento consistente com referências internacionais. PifPaf e gigantes como Seara e MBRF aparecem no nível intermediário de adoção de compromissos para frangos, enquanto as outras 11 empresas analisadas permanecem nos níveis mais baixos da escala, distantes das práticas de formalização e transparência que caracterizam elevados padrões de governança em bem-estar animal.  

Para os pesquisadores, o resultado revela uma contradição crescente: enquanto o Brasil ocupa posição estratégica no comércio global de alimentos, ainda não construiu uma narrativa robusta de transparência e governança sobre um tema que ganha importância entre investidores, compradores internacionais e formuladores de políticas públicas. 

“A liderança produtiva colocou o Brasil no centro do mercado global de proteína animal. O desafio agora é transformar essa posição em protagonismo também na construção de padrões e compromissos para o futuro do setor”, afirma Ana Paula Souza, médica veterinária e especialista em aves na Alianima — organização de proteção animal sem fins lucrativos, que atua junto à indústria alimentícia para promover melhorias no bem-estar animal das cadeias produtivas. 

Mercados globais ampliam pressão por transparência e bem-estar animal 

A porta-voz argumenta que o debate sobre bem-estar animal deixou de ser tratado apenas como uma questão ética e passou a integrar discussões relacionadas à competitividade econômica, acesso a mercados, critérios ESG e gestão de riscos.

Entre os fatores apontados estão o avanço de exigências regulatórias e comerciais internacionais, como as associadas ao acordo Mercosul-União Europeia; a crescente demanda por transparência e prestação de contas nas cadeias produtivas; e a preocupação com temas de Saúde Única, incluindo resistência antimicrobiana e influenza aviária. 

Segundo o estudo, o protagonismo internacional do Brasil na exportação de carne de frango também amplia o nível de atenção sobre as práticas adotadas pelo setor. “O país construiu uma posição de liderança global, mas essa posição vem acompanhada de expectativas crescentes relacionadas à sustentabilidade, governança e bem-estar animal”, aponta.

A disputa pela liderança global está aberta

De acordo com a análise, a discussão já não é mais se o setor deve avançar em bem-estar animal, mas em qual velocidade e sob a liderança de quais atores. “O setor se modernizou com enorme sucesso do ponto de vista produtivo, mas não acompanhou, na mesma velocidade, a evolução das discussões internacionais sobre bem-estar animal”, ressalta Ana Paula.

A concentração da produção brasileira em poucas empresas torna esse desafio especialmente estratégico. Juntas, as duas maiores empresas do setor respondem por mais de dois terços da produção brasileira de frango de corte, o que amplia o potencial de impacto de eventuais avanços sobre toda a cadeia produtiva — em outras palavras, um desafio que também gera uma oportunidade.

“Estamos diante de uma janela de oportunidade impulsionada pela crescente valorização da transparência e da responsabilidade corporativa. O Brasil reúne escala, capacidade técnica e coordenação suficientes para liderar uma transição gradual rumo a melhores práticas de bem-estar animal”, afirma. A questão central que permanece em aberto é quem assumirá o protagonismo desse processo, conclui o relatório. 

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Imagem: Freepik

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