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06 de agosto, 2026

A menos de dois anos para o fim dos prazos, maioria das redes supermercadistas não avança na transição para ovos livres de gaiolas

Relatório da Alianima mostra que 64% das bandeiras que reportam resultados permaneceram estagnadas ou regrediram no último ano; enquanto isso, quase um quarto das empresas comprometidas nunca divulgou qualquer avanço da transição

Faltando menos de dois anos para o final dos prazos assumidos por empresas brasileiras para vender exclusivamente ovos produzidos por galinhas livres de gaiolas, a maior parte do varejo e atacado ainda está distante de cumprir seus compromissos. É o que revela a terceira edição do Observatório do Ovo, levantamento anual da Alianima que acompanha a evolução da transição para sistemas cage-free nas principais redes supermercadistas do país. 

Clique aqui para acessar a 3ª edição do Observatório do Ovo

O estudo mostra que, entre as empresas que divulgam seus indicadores, 64% das bandeiras não apresentaram qualquer avanço na transição durante o último ano, mantendo seus percentuais estagnados ou, em alguns casos, registrando retrocessos. O cenário acende um alerta justamente no momento em que os compromissos assumidos pelo setor entram em sua reta final. 

O levantamento também chama atenção para outro aspecto: nem todas as empresas que assumiram compromissos públicos prestam contas sobre sua evolução. Das 17 companhias participantes que possuem metas públicas para a oferta exclusiva de ovos livres de gaiolas em suas lojas, quatro — o equivalente a 24% — nunca reportaram qualquer avanço desde a publicação de seus compromissos. Isso significa que, embora 76% das empresas comprometidas compartilhem algum tipo de informação sobre a implementação das metas, ainda existe uma parcela relevante do setor que permanece sem apresentar resultados concretos. 

“Durante muitos anos, a discussão sobre ovos livres de gaiolas focou na adesão aos compromissos públicos. Agora, com os prazos dos supermercados se aproximando, o desafio passa a ser outro: demonstrar, com transparência, que essas metas estão sendo efetivamente cumpridas”, afirma Maria Fernanda Martin, zootecnista e gerente de bem-estar animal da Alianima — organização de proteção animal sem fins lucrativos, que atua junto à indústria alimentícia para promover melhorias no bem-estar animal das cadeias produtivas.

Desde 2015, grandes empresas do setor alimentício e de hotelaria passaram a anunciar compromissos públicos para substituir gradualmente os ovos provenientes de galinhas criadas em gaiolas por sistemas livres desse confinamento. Atualmente, mais de 160 empresas brasileiras já assumiram esse compromisso, com metas concentradas entre 2025 e 2030. 

Engajamento e evolução ainda são desafios para parte do setor 

Além do ritmo lento da transição, o relatório evidencia que o engajamento continua sendo um gargalo importante.

Nesta edição, a Alianima também convidou, pela primeira vez, grandes supermercadistas que ainda não possuem compromissos públicos relacionados ao tema. Entre as 13 empresas convidadas, apenas uma respondeu ao levantamento – Assaí -, demonstrando que parte significativa do setor ainda permanece distante da agenda sobre bem-estar animal. 

“Os supermercados são o principal elo entre a produção de alimentos e o consumidor, o que também os torna responsáveis pelo bem-estar animal em suas cadeias de abastecimento. Temos buscado ativamente a construção de pontes com as maiores redes do país que ainda não possuem compromissos públicos. Mas a dificuldade em obter respostas e a falta de diálogo sobre o tema do bem-estar animal tem sido um grande obstáculo”, ressalta a porta-voz

Entre as empresas que já possuem compromissos públicos, o cenário é heterogêneo. Enquanto algumas mantêm a divulgação periódica de seus indicadores, outras deixaram de atualizar informações ou reduziram o nível de transparência em relação aos anos anteriores. 

O Carrefour, por exemplo, apresentou redução na participação de ovos livres de gaiolas comercializados, passando de 21,4% para 20,2%. Enquanto o  Cencosud, caiu de 14,4% para 14,2%. Já o Pague Menos, apesar da boa evolução na edição anterior, deixou de reportar qualquer avanço este ano.

“A transparência é parte essencial de qualquer compromisso público. Quando uma empresa estabelece uma meta, ela também assume a responsabilidade de informar periodicamente como essa implementação está acontecendo. Esse acompanhamento permite que consumidores, investidores e a própria cadeia produtiva compreendam quais avanços estão sendo alcançados e onde ainda existem desafios”, ressalta a porta-voz.

Mercado de ovos cresce enquanto compromissos entram na reta final 

Nos últimos dez anos, a produção nacional aumentou 58%, enquanto o consumo cresceu 51%. Em 2025, o Brasil atingiu um recorde histórico de 62,3 bilhões de ovos produzidos, consolidando-se entre os maiores produtores mundiais. Esse cenário amplia a importância das decisões tomadas pelo varejo, que exerce papel estratégico na indução de práticas mais sustentáveis, inclusive de bem-estar animal ao longo da cadeia produtiva. 

Para a especialista, o crescimento do mercado demonstra que a transição para sistemas livres de gaiolas não acontece em um contexto de retração, mas sim em uma cadeia que continua se expandindo e atraindo investimentos. Justamente por isso, é fundamental que os compromissos públicos assumidos avancem no mesmo ritmo da evolução do setor.

“A boa notícia é que já existem exemplos que demonstram que essa transição é possível. O desafio agora é fazer com que esses casos deixem de ser exceção e passem a representar uma parcela cada vez maior do mercado. Ainda há tempo para acelerar esse processo, mas os próximos anos serão decisivos para transformar compromissos em resultados concretos.”, conclui. 

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Imagem: Freepik

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